16/02/2009

Fábulas

Todos nós, ainda em tenra idade, ouvimos dizer que existiu um dia uma menina de bonito capuz vermelho, que incumbida de levar à sua avó uma recheada cesta de fruta, acabou por ser atacada por um diabólico e mal intencionado lobo, que, aproveitando-se da sua inocência a devora num só suspiro. Crescemos. Contamos Às outras crianças a mesma história, e, sem dar por isso, acabamos por ser personagens da mesma. Também nós em determinadas alturas da vida, vestimos um avantajado capuz vermelho, e, apesar das recomendações, decidimos mudar o nosso rumo, quase sempre por um caminho desconhecido, sombrio, mas, ainda assim aliciante. Ao seguirmos o nosso trajecto cruzamo-nos com um lobo, vestindo a pele de cordeiro, que nos acompanha pelo caminho e nos dá rotas e estratégias para chegarmos mais rápido a uma meta que ainda desconhecemos, e que só ele sabe onde vai chegar. Depois deixamo-nos levar pela conversa,(porque é disso que se trata, de conversa e nada mais!), e devoram-nos com tamanha satisfação, que julgamos ser o mais majestoso banquete da vida de qualquer lobo. Depois, satisfeita a vontade, largam-nos sozinhas pelo caminho, ainda mais sombrio e assustador, mais árido e atribulado. Depois vestimos nós a pele do lobo,afiamos as garras e procuramos no escuro uma pequena luz que nos alivie e acalente as feridas causadas. E assim prosseguimos a viagem rumo ao caminho anteriormente traçado, desconhecendo se alguma vez havemos de lá chegar. Com ou sem capuz, a história repete-se vezes sem conta. Do lobo nada mais se sabe. Estará também ele perdido num bosque desconhecido à espera de uma luz? Aquele nos devolveu a luz perdida è entrada desse caminho, é quem agora nos evita, nos rejeita e abandona, e se disfarça de avózinha adoentada, sem forças suficientes para responder às questões que nos sobressaltam o coração e nos fazem doer a alma. Restam as palavras vazias de conteúdo que nos atormentam o pensamento, ficam as incertezas, as mágoas... O mesmo enredo, a mesma estória, as mesmas feridas. Porque a vida é uma fábula que nós próprios criamos. Fábulas que devemos guardar para a vida. Porque há sempre um lobo à espreita, e a qualquer momento, Zás! Morde-nos a alma e o coração.

1 comentário:

Anónimo disse...

"devoram-nos com tamanha satisfação, que julgamos ser o mais majestoso banquete da vida de qualquer lobo"... no fundo, só acreditamos (desesperadamente, por vezes)naquilo que queremos e o lobo nem nos parece tão ameaçador enquanto dura a nossa fábula... pior é depois, quando não há capuchinho suficientemente grande para nos agasalhar o coração ferido... ou quando largamso o capuchinho pelo caminho e vestimos nós a pele de lobo (o que por vezes só vem piorar tudo cá dentro...).
Jinhos grandes